
Conversas de Energia – Ronaldo Lima
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Nesta edição da seção de Conversas de Energia da One. Revista Energia, falamos com Ronaldo Lima, conselheiro sênior da WSB Advisors, um profissional com mais de quatro décadas de experiência nos setores naval e offshore. Ao longo da entrevista, Ronaldo compartilha sua jornada — desde seus primeiros passos em engenharia civil até seus papéis de liderança em grandes empresas como CBO e Astromarítima. Ele discute os desafios e avanços na indústria, a importância da Lei 9.432/97, o papel da inovação nos estaleiros brasileiros, e suas perspectivas sobre o futuro da energia no país.
Ronaldo, cada entrevista geralmente tem um foco específico. Na edição anterior, por exemplo, falamos muito sobre saúde mental no trabalho. Neste, queremos prestar homenagem a você. Mas além disso, você tem um currículo impressionante. Conte-nos sobre o início de sua carreira.

Nasci e cresci no Rio de Janeiro. Me formei em Engenharia Civil em 1981 pela Universidade Santa Úrsula. Meu pai e irmão mais velho eram engenheiros civis. Fui inspirado por eles, assim como meu filho, João Pedro, foi inspirado por mim. A engenharia civil me deu uma visão ampla do mundo.
Tive dois estágios: no primeiro, participei da construção do condomínio Barramares, um desenvolvimento tradicional e conhecido no bairro Barra da Tijuca. O segundo foi em Esusa Engenharia, onde trabalhei na área de orçamento de projetos de construção.
Quando me formei, o mercado de trabalho de engenharia estava fraco, então comecei a trabalhar no departamento comercial da SulAmérica Seguros, onde aprendi muito sobre a indústria.
E depois de SulAmérica, qual foi o próximo passo em sua carreira?
Cinco anos depois, fui convidado para me juntar à equipe financeira do estaleiro Mac Laren, em Niterói, com a oportunidade de perseguir um MBA nos Estados Unidos. Escolhi a Universidade Nova Sudeste na Flórida em 1986.
O programa durou um ano e meio, e voltei ao Brasil em 1987 para enfrentar grandes desafios no Grupo Mac Laren, particularmente em meio a constantes mudanças nas políticas econômicas (moeda e inflação), o que levou a empresa a apresentar um pedido de reorganização judicial. Felizmente, a empresa recuperou e recuperou destaque na indústria naval brasileira.
E quais foram seus próximos passos depois de deixar o Grupo Mac Laren?
Em 1991, assumi o cargo de Presidente da AstroMarítima, nomeado pelo fundador William Mac Laren, durante um período de crescimento significativo. Passei 16 anos na empresa, assumindo meu maior desafio naquela época, tornando-me CEO aos 33 anos.
Ganhei valiosa experiência trabalhando com a Petrobras, aprendendo muito com negociações complexas, especialmente em contratos de fretamento. Também participei da implementação da Lei 9.432/97, que prioriza a contratação de embarcações sob a bandeira brasileira. Esta lei impulsionou o crescimento dos setores de apoio marítimo e offshore no país, atraindo empresas como o americano Edison Chouest, o DOF norueguês, e o chileno Starnav, entre outras. Foi um processo desafiador, envolvendo vários jogadores, mas extremamente importante para o país.
Lembro de uma situação engraçada envolvendo um colega da indústria que fez uma apresentação mostrando os prós e contras da construção no Brasil. Alguém lhe perguntou: “Mas o lado dos ‘cons’ está em branco.” Essa foi a piada, não havia contras. Hoje, a frota brasileira é muito maior que a frota estrangeira.
Em 2006, entrei para a CBO (Companhia Brasileira de Offshore), onde fiquei por 15 anos e contribuí para o crescimento da empresa, incluindo expansão da frota e fortalecimento do setor.
Conte-nos sobre sua experiência e realizações na CBO.
Quando entrei para a empresa, ainda era pequena e fazia parte do Grupo Fischer, cujos principais ativos incluíam Citrosuco, uma empresa famosa por sua produção de suco de laranja. O grupo também era dono da Aliança Navegação. Naquela época, o CBO era visto como o “patinho feio” entre esses grandes empreendimentos.
Tive a oportunidade de fazer parte de momentos muito importantes, como o pico do Estaleiro Aliança. Este estaleiro foi adquirido pela CBO em 2004, ainda sob o nome EBIN, e depois remodelado. A partir de então, começou a construir ativos essenciais para a empresa, incluindo vários PSVs e AHTSs.
Hoje, a frota da CBO tem cerca de 45 embarcações, o que mostra o enorme crescimento da empresa nos últimos anos. Estou muito orgulhoso de ter contribuído para este processo de expansão. Eu também realço a importância dos recursos do FMM (Merchant Marine Fund) e o apoio do Grupo Fischer para ajudar a empresa a crescer.

Falando em estaleiros, o Brasil está pronto para um novo boom de construção?
Sim. A força de trabalho para a construção naval pode ser treinada relativamente rapidamente – em cerca de um ano – e hoje já temos a tecnologia e soluções para minimizar os atrasos e garantir a entrega no tempo, mesmo em projetos complexos. O centro principal é em estaleiros localizados em Santa Catarina, mas o país é totalmente capaz de expandir a construção de pequenas, médias e grandes embarcações, bem como plataformas.
E como tem sido seu trabalho na WSB Advisors até agora?
Em 2023, fui convidado por Alexandre Vilela, CEO da WSB, para se juntar à empresa. Coordeno projetos que envolvem várias áreas, como corretagem, finanças, comerciais e engenharia. Eu também represento a empresa em eventos importantes da indústria, como OTC (Brasil e Houston) e Navalshore, usando meu passado com ABEAM.
E como foi seu papel na ABEAM e Syndarma?
Liderei ABEAM e Syndarma por 20 anos, organizações que agora estão praticamente integradas. Meu papel era defender os interesses das empresas brasileiras, promover o diálogo com as instituições e garantir o fortalecimento do setor marítimo nacional. Mesmo depois de me demitir em 2018, continuo ativo e mantenho muitos contatos importantes nessas associações.
Recentemente, a WSB participou de uma palestra especial na UFRJ. Como foi essa experiência?
Foi uma experiência muito gratificante. Falamos com estudantes dos programas de Engenharia Naval e Ocean sobre o mercado e oportunidades de carreira no setor. Queríamos mostrar-lhes que o campo vai além de cálculos estruturais e design – também abrange áreas comerciais e financeiras.
Eu compartilhei minha história de carreira, mostrando como os engenheiros podem mudar com sucesso para papéis comerciais e estratégicos. É importante para os jovens entenderem que há espaço para diferentes perfis e que o setor marítimo permanece um terreno fértil para aqueles ansiosos por aprender.

Que reflexos você tira desses eventos?
Acredito que todos esses eventos mostraram uma forte atração pela indústria, trazendo novos jogadores para o mercado.
E que mudanças você observou no mercado ao longo de seus 40 anos de experiência?
O setor marítimo cresceu tremendamente, com embarcações mais sofisticadas e tecnologias avançadas. Há um importante desenvolvimento tecnológico em curso, tanto em navios como em operações de exploração de petróleo. A integração entre empresas e a defesa dos interesses nacionais, como destacado na Lei 9.432/97, têm sido fundamentais para fortalecer a indústria.
E como você vê o futuro do setor energético no Brasil?
Acredito que a exploração de petróleo continuará predominante no país até 2050. Há discussões sobre energias alternativas, no entanto a infraestrutura e a logística ainda não estão maduras o suficiente para substituir o petróleo.
Por exemplo: quantos postos de gasolina carregam carros elétricos? Quantas empresas fornecem painéis solares? Quantas casas estão prontas para adotar esse tipo de energia? É por isso que os setores naval e offshore continuarão a crescer e trazer novas tecnologias, garantindo o desenvolvimento econômico e criação de emprego no Brasil por décadas. O crescimento está em curso e longe do fim — especialmente agora, com o início da exploração na Margem Equatorial do Brasil.
Muito obrigado, Ronaldo! Foi uma conversa notável e inesquecível.
Esta matéria foi produzida pela equipe editorial da Westhon Media para o One Energy News.